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NOTÍCIAS DO BRASIL E DO MUNDO

 

Torturados em nome da ciência

 

Matéria no site: http://igirl.ig.com.br/paponervoso 

Se você acha que testes em animais é aquela coisa que a gente vê em desenho animado - um camundongo correndo numa mini roda-gigante - está muito enganada. O documentário "Não Matarás", produzido pelo Instituto Nina Rosa, é um soco no estômago. O filme revela - por meio de câmeras escondidas - os terríveis testes que universidades e laboratórios
realizam à sombra de justificativas velhas.

"Não adianta virar o rosto, nem fechar os olhos", recomenda Nina no início do documentário. Mas não adiantou avisar. Na sala lotada de jornalistas só se via gente evitando as cenas dolorosas - no sentido mais real da palavra.

Não vou relatar tudo o que eu vi. O conteúdo é tão pesado que não caberia neste espaço. E antes que alguém diga que essa prática é um "mal necessário", saiba agora o que esse pessoal está denunciando.

Denúncia


Estão falando de teste de impacto para capacetes de futebol americano em
macacos, falando de beagles - preferidos para testes porque são dóceis -   com fratura exposta e ossos quebrados trancados numa gaiola minúscula, estão falando de vivissecção - operação feita em animais saudáveis e vivos. Daí pra baixo.

Tudo isso lhe parece sem sentido? Pois bem, realmente não tem sentido. Pesquisas de toda a sorte são feitas com animais pelo mundo. Muitas vezes, para reafirmar respostas óbvias e de maneira cruel. Eu sei que é duro ler tudo isso, falar desse assunto também dói, mas a gente precisa começar a entender como as coisas acontecem.

Cientistas e cientistas


Não vamos generalizar. Obviamente existem muitos cientistas conscientes e preocupados com o bem-estar animal. São pessoas "do bem", sem medo de tentar ser e fazer melhor. Quer apostar?

As aulas de Técnicas Cirúrgicas e Ortopedia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zoologia de São Paulo não utilizam mais animais vivos. Todos os estudos são feitos em cadáveres - provenientes do hospital veterinário da instituição. Esses animais serão utilizados de 4 a 10 vezes durante um semestre, poupando a vida de, em média, 300 cães e coelhos por ano.

Nos EUA, Universidades como Harvard e Yale aboliram a utilização de
animais para fins "didáticos". Por lá, são utilizados outros métodos de
aprendizagem, menos agressivos e muito mais efetivos.

Outro exemplo maravilhoso de como o avanço da ciência e o respeito pelos bichos podem andar juntos: nos EUA muitas empresas já estampam nos seus rótulos o selo da "Vega Action", um certificado de que a empresa não sacrifica animais em nome de seus produtos. Esse selo ainda não existe no Brasil, mas eu estou torcendo pra alguma autoridade levantar essa bandeira.

Ta vendo como nem tudo está perdido! Pena que o bem ainda seja atitude
das exceções.

O que diz a lei


Para saber o que a lei prevê, conversei com o promotor de justiça Laerte Fernando Levai, autor da obra "Direito dos Animais" (Editora Mantiqueira, 2004). Ele esclareceu pontos muito importantes, como um possível conflito legal, confira um apanhado:

Lei federal n. 9.605/98 - artigo 32 par. 1º (Lei dos Crimes Ambientais).
- Sempre que houver recursos alternativos - seja nas atividades de pesquisa, seja no âmbito didático - a realização da experiência dolorosa ou cruel em animal vivo pode caracterizar crime de abuso e maus tratos.

Portaria n. 1.480/MS, de 31 de dezembro de 1990, anexo III
- Em alguns casos, a legislação sanitária brasileira impõe como requisito à liberação de novas drogas no mercado, o prévio teste em animais (cobaias). Esta portaria menciona que os produtos absorventes higiênicos (assim como as matérias-primas que compõem tais produtos) devem ser submetidos a ensaios de irritação cutânea primária, cumulativa e ensaio de sensibilização. Dependendo da situação a segunda fase dos testes é realizada em seres humanos (pacientes clínicos ou voluntários).

A lei do bom-senso


"A solução para resolver um possível conflito de leis está no bom-senso", afirma o promotor, que lembra: "nossa própria Constituição Federal, de 1988, incumbiu ao poder público o dever de proteger a fauna, vedadas as práticas que submetam os animais à crueldade".

"A busca de um ideal aparentemente utópico, o de abolir toda e qualquer forma de experimentação animal, não permite o comodismo nem o preconceito. Necessário que o cientista liberte-se dos dogmas mecanicistas e racionalistas enraizados no meio científico para, assumindo uma postura verdadeiramente ética, trazer aos laboratórios e centros de pesquisas alguns dos métodos alternativos de eficácia reconhecida e que poderiam ser perfeitamente utilizados no Brasil".

Hipocrisia?


Há quem ache a discussão hipócrita. Afinal, quem nunca utilizou produtos e remédios para o seu benefício que foram testados em animais? Quantos avanços ocorreram por causa destes testes...

Para você que pensa assim talvez seja interessante refletir que as coisas podem mudar sim, e para melhor. Ninguém está propondo o retrocesso da medicina, muito menos a utilização irresponsável de remédios e produtos nos seres humanos. A idéia é propor a substituição de técnicas invasivas por métodos alternativos já existentes, como estudos in-vitro em culturas de células e tecidos, técnicas modernas de tumografia não-invasivas, estudos clínicos e epidemiológicos, uso de placentas para testes de toxicidade, estudos pós-morte, entre outros.

Confesso que...


Pensei muito antes de trazer este tema - tão forte e delicado - para esta coluna. Tive medo de assustar, de entristecer, de pegar pesado demais. Depois pensei bem e conclui que é a partir das suas idéias, uma pessoa tão jovem, que um novo mundo vai se desenhar. E que este desenho seja o melhor possível.

Quem sabe um dia seremos realmente modernos a ponto de não precisarmos que outro ser vivo sofra por nós. O que é modernidade pra você? Beijos e até a próxima.

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