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Se você acha que testes em animais é aquela coisa que a gente vê
em desenho animado - um camundongo correndo numa mini roda-gigante
- está muito enganada. O documentário "Não Matarás", produzido
pelo Instituto Nina Rosa, é um soco no estômago. O filme revela -
por meio de câmeras escondidas - os terríveis testes que
universidades e laboratórios
realizam à sombra de justificativas velhas.
"Não adianta virar o rosto, nem fechar os olhos", recomenda Nina
no início do documentário. Mas não adiantou avisar. Na sala lotada
de jornalistas só se via gente evitando as cenas dolorosas - no
sentido mais real da palavra.
Não vou relatar tudo o que eu vi. O conteúdo é tão pesado que não
caberia neste espaço. E antes que alguém diga que essa prática é
um "mal necessário", saiba agora o que esse pessoal está
denunciando.
Denúncia
Estão falando de teste de impacto para capacetes de futebol
americano em
macacos, falando de beagles - preferidos para testes porque são
dóceis - com fratura exposta e ossos quebrados
trancados numa gaiola minúscula, estão falando de vivissecção -
operação feita em animais saudáveis e vivos. Daí pra baixo.
Tudo isso lhe parece sem sentido? Pois bem, realmente não tem
sentido. Pesquisas de toda a sorte são feitas com animais pelo
mundo. Muitas vezes, para reafirmar respostas óbvias e de maneira
cruel. Eu sei que é duro ler tudo isso, falar desse assunto também
dói, mas a gente precisa começar a entender como as coisas
acontecem.
Cientistas e cientistas
Não vamos generalizar. Obviamente existem muitos cientistas
conscientes e preocupados com o bem-estar animal. São pessoas "do
bem", sem medo de tentar ser e fazer melhor. Quer apostar?
As aulas de Técnicas Cirúrgicas e Ortopedia da Faculdade de
Medicina Veterinária e Zoologia de São Paulo não utilizam mais
animais vivos. Todos os estudos são feitos em cadáveres -
provenientes do hospital veterinário da instituição. Esses animais
serão utilizados de 4 a 10 vezes durante um semestre, poupando a
vida de, em média, 300 cães e coelhos por ano.
Nos EUA, Universidades como Harvard e Yale aboliram a utilização
de
animais para fins "didáticos". Por lá, são utilizados outros
métodos de
aprendizagem, menos agressivos e muito mais efetivos.
Outro exemplo maravilhoso de como o avanço da ciência e o respeito
pelos bichos podem andar juntos: nos EUA muitas empresas já
estampam nos seus rótulos o selo da "Vega Action", um certificado
de que a empresa não sacrifica animais em nome de seus produtos.
Esse selo ainda não existe no Brasil, mas eu estou torcendo pra
alguma autoridade levantar essa bandeira.
Ta vendo como nem tudo está perdido! Pena que o bem ainda seja
atitude
das exceções.
O que diz a lei
Para saber o que a lei prevê, conversei com o promotor de justiça
Laerte Fernando Levai, autor da obra "Direito dos Animais"
(Editora Mantiqueira, 2004). Ele esclareceu pontos muito
importantes, como um possível conflito legal, confira um apanhado:
Lei federal n. 9.605/98 - artigo 32 par. 1º (Lei dos Crimes
Ambientais).
- Sempre que houver recursos alternativos - seja nas atividades de
pesquisa, seja no âmbito didático - a realização da experiência
dolorosa ou cruel em animal vivo pode caracterizar crime de abuso
e maus tratos.
Portaria n. 1.480/MS, de 31 de dezembro de 1990, anexo III
- Em alguns casos, a legislação sanitária brasileira impõe como
requisito à liberação de novas drogas no mercado, o prévio teste
em animais (cobaias). Esta portaria menciona que os produtos
absorventes higiênicos (assim como as matérias-primas que compõem
tais produtos) devem ser submetidos a ensaios de irritação cutânea
primária, cumulativa e ensaio de sensibilização. Dependendo da
situação a segunda fase dos testes é realizada em seres humanos
(pacientes clínicos ou voluntários).
A lei do bom-senso
"A solução para resolver um possível conflito de leis está no
bom-senso", afirma o promotor, que lembra: "nossa própria
Constituição Federal, de 1988, incumbiu ao poder público o dever
de proteger a fauna, vedadas as práticas que submetam os animais à
crueldade".
"A busca de um ideal aparentemente utópico, o de abolir toda e
qualquer forma de experimentação animal, não permite o comodismo
nem o preconceito. Necessário que o cientista liberte-se dos
dogmas mecanicistas e racionalistas enraizados no meio científico
para, assumindo uma postura verdadeiramente ética, trazer aos
laboratórios e centros de pesquisas alguns dos métodos
alternativos de eficácia reconhecida e que poderiam ser
perfeitamente utilizados no Brasil".
Hipocrisia?
Há quem ache a discussão hipócrita. Afinal, quem nunca utilizou
produtos e remédios para o seu benefício que foram testados em
animais? Quantos avanços ocorreram por causa destes testes...
Para você que pensa assim talvez seja interessante refletir que as
coisas podem mudar sim, e para melhor. Ninguém está propondo o
retrocesso da medicina, muito menos a utilização irresponsável de
remédios e produtos nos seres humanos. A idéia é propor a
substituição de técnicas invasivas por métodos alternativos já
existentes, como estudos in-vitro em culturas de células e
tecidos, técnicas modernas de tumografia não-invasivas, estudos
clínicos e epidemiológicos, uso de placentas para testes de
toxicidade, estudos pós-morte, entre outros.
Confesso que...
Pensei muito antes de trazer este tema - tão forte e delicado -
para esta coluna. Tive medo de assustar, de entristecer, de pegar
pesado demais. Depois pensei bem e conclui que é a partir das suas
idéias, uma pessoa tão jovem, que um novo mundo vai se desenhar. E
que este desenho seja o melhor possível.
Quem sabe um dia seremos realmente modernos a ponto de não
precisarmos que outro ser vivo sofra por nós. O que é modernidade
pra você? Beijos e até a próxima. |