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21/02/2006
Lillian Witte Fibe
A gripe aviária já matou 92 pessoas na Ásia e Europa. Depois de
ter matado cisnes selvagens na Itália, o vírus foi confirmado como
a causa da morte em patos na Alemanha, na quarta-feira e na
França, no sábado.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) informa que o H5N1 está
ficando mais resistente: antes vivia dois dias em temperaturas
amenas, por exemplo, agora já vive seis dias. E o aparecimento da
doença em novos países já fez da gripe aviária, segundo a mesma
OMS, um problema de saúde pública.
A organização informa que é "difícil, senão impossível", prever
quando o vírus vai mudar a ponto de pôr em risco a vida de seres
humanos, isto é, passando de uma pessoa pra outra e provocando a
tão temida pandemia, ou epidemia mundial.
Há razões para temer a chegada da doença no Brasil? Para o
infetologista Marcos Boulos, do grupo de combate à gripe aviária
do Hospital das Clínicas (USP), a situação do país é "mais
tranqüila" do que da maior parte dos países europeus.
"Não somos importadores de aves, mas exportadores, o principal do
mundo de frangos, portanto é pouco provável que tragamos para o
país frangos importados. A possibilidade concreta é através das
aves migratórias, que vão de um país para outro fugindo do frio.
Mas as que chegam ao Brasil vêm da América do Norte. Por isso,
estamos um pouco tranqüilos com relação a contaminação do nosso
rebanho de aves", disse em entrevista ao UOL News.
Segundo o infectologista, no entanto, a resistência do vírus
preocupa. "Como todo ser vivo, o vírus tende a se adaptar,
gradativamente vai se adaptando a ambientes mais adversos,
tornando-se mais versátil. Ou seja, a barreira natural que havia
não há mais. Desta forma, pode ultrapassar para outros lugares por
meio dos frangos e das aves."
Entretanto, não é possível prever, na opinião de Boulos, quanto
tempo levará para que uma mutação torne o vírus transmissível
entre humanos, condição para a tão temida pandemia.
"É uma adivinhação. As mutações são sempre esperadas, mas se
tornam mais prováveis à medida que há muitas pessoas, ou outros
tipos de animais, como porcos, contaminados. Uma grande circulação
do vírus. Neste momento, o número de humanos ainda é muito
pequeno, mesmo comparado com a SARS (síndrome respiratória aguda
grave, que atingiu a Ásia entre 2003 e 2004). São tratadores de
frango, pessoas que manipulam mesmo", contemporiza.
"Se humanos começam a se contaminar, a chance de mutação aumenta,
mas não dá para prever porque mutações são aleatórias, surgem ao
acaso. Podem demorar anos ou meses. Depende do número de pessoas
que serão acometidas", completa.
Vacina
O Brasil está próximo de produzir uma vacina contra o vírus H5N1,
segundo Boulos. O problema, ele diz, é que se houver mutação, uma
vacina não terá cobertura completa, já que o produto imunizaria a
um número limitado de cepas.
Mesmo neste caso, no entanto, o infectologista crê em uma produção
rápida de um novo imunizante. "Assim que se isola o vírus, é
rápido. Foi assim que conseguimos conter a pneumonia asiática (SARS),
que simulava uma grande pandemia. A tecnologia fez com que
rapidamente se formasse uma rede mundial de laboratórios que
conseguiu, para a surpresa de todos, segurar esta epidemia. Não
tivemos casos no Brasil", lembra.
O Tamiflu, medicamento mais conhecido contra a doença, também não
teria efeito no caso de uma epidemia mundial, diz Boulos, que
define a grande procura pelo remédio no mundo nos últimos meses
como uma "crise de desespero perante o desconhecido". "Nem sabemos
direito quanto esse medicamento protege. Não é absolutamente
reconhecido."
Prevenção
A principal atividade do grupo montado no Hospital das Clínicas,
segundo Marcos Boulos, é o contingenciamento da gripe aviária.
Segundo ele, foram feitos documentos para orientar a população no
caso de aparecerem casos da doença, como prevenir o surgimento e
orientando sobre ações em portos, aeroportos e nas fronteiras para
evitar a importação de aves ou que pessoas contaminadas entrem no
país.
"O que está sendo feito nos hospitais é orientar os prontos
socorros como diagnosticar um caso, como se faz o isolamento, qual
o manuseio para evitar que se torne uma epidemia maior", disse.
http://noticias.uol.com.br/uolnews/saude/2006/02/21/ult2750u83.jhtm
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