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JORNAL: DIARIO CATARINENSE -
Florianópolis, 02 de março de 2006. Edição nº 7260
Evento
Polêmica acesa
JOÃO CAVALLAZZI - joao.cavallazzi@diario.com.br
O secretário de Estado da Cultura, Turismo e Esporte, Gilmar Knaesel,
desautorizou ontem o diretor de Marketing da Santur, Valdir Walendowsky, a
falar sobre farra do boi em nome do governo. Em entrevista à Agência RBS,
na terça-feira, Walendowsky afirmou, entre outras coisas, que a farra do
boi é uma "atr ação que faz parte da venda de roteiro de turismo do
Estado".
A declaração provocou polêmica. Para o secretário, o diretor da Santur
"expressou um sentimento pessoal" que, segundo ele, não reflete a política
do governo Luiz Henrique para o setor.
- O Valdir Walendowsky é um grande profissional na área de turismo, mas
neste caso está equivocado e não fala como uma posição de governo -
esclareceu Knaesel.
O secretário lembrou que a farra é considerada crime de maus-tratos a
animais pela Justiça brasileira, e por isso não pode ser defendida e muito
menos incentivada por agentes públicos.
Respondendo às acusações de que publicamente o governo se diz contra a
farra mas "nos bastidores" não faz muita força para cumprir a lei, Knaesel
respondeu que "não tem nenhum fato que possa comprovar que estavam fazendo
vistas grossas (à farra)".
- Em momento algum nós temos incentivado de qualquer forma a farra do boi
em SC. A farra está proibida por lei e nós como governo temos que cumprir
a lei.
Empresários ligados à hotelaria em Governador Celso Ramos, onde a prática
é mais arraigada, também discordam do diretor de Marketing da Santur. Dono
de uma pousada na praia da Armação há 10 anos, Haraldo Richter, 60, avalia
que a tradição açoriana afasta visitantes da região.
- O problema é que atrás do boi vem a boiada. Quando há bois soltos por
aqui os hóspedes não podem nem ir à praia - reclamou Richter, para quem a
farra "extrapolou, virou coisa de cachaceiro".
Para prevenir problemas, o empresário cercou sua pousada com muros altos.
Aos desavisados, sempre alerta sobre a possibilidade de, a qualquer
momento e em qualquer lugar, aparecer um animal fugindo de farristas.
Segundo ele, os bois já começaram a ser soltos na região.
O DC procurou ontem o presidente da seccional catarinense da Associação
Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih/SC), João Eduardo Amaral Moritz,
mas ele disse que não comentaria o assunto enquanto não lesse as
declarações do diretor de Marketing da Santur.
É crime, segundo a lei
Confira a legislação e o acórdão do Supremo Tribunal Federal que determina
a ilegalidade da prática
O que diz o Acórdão RE 153531/SC, do Supremo Tribunal Federal
É obrigação do Estado garantir a todos o pleno exercício de direitos
culturais, incentivando a valorização e a difusão das manifestações; não
prescinde da observância da norma do inciso VII, do Artigo 225 da
Constituição Federal, no que veda a prática que acabe por submeter os
animais à crueldade, procedimento discrepante da norma constitucional,
denominada farra do boi
O que diz o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98)
É proibido praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais
silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos. A pena é
detenção, de três meses a um ano, e multa. Incorre nas mesmas penas quem
realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins
didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos. A pena é
aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.
Outros acidentes
10/03/2003
Dois homens foram socorridos por uma ambulância do Corpo de Bombeiros de
Itapema, na Rua Curió, após serem feridos no pescoço e nas nádegas por um
boi que era perseguido em uma farra, na Praia de Bombas, em Bombinhas.
20/03/2003
Um boi morreu afogado no mar, na Praia de Canto Grande, em Bombinhas,
durante uma farra do boi. Ninguém se responsabilizou pela propriedade do
animal.
17/03/2004
Em uma farra do boi em Navegantes, casas tiveram cercas destruídas e um
homem foi hospitalizado com escoriaçõe, após ter sido atingido pelo
animal.
22/03/2004
Um boi acuado por farristas em Itapema matou Bruno Corrêa Pereira, 17. Na
madrugada em que fazia aniversário, o rapaz levou uma chifrada no pescoço
ao tentar socorrer um farrista.
3/05/2004
O bebê Carlos Eduardo Costa de Souza, de dois meses, morreu no colo de sua
mãe num acidente de trânsito provocado por uma farra do boi, em Governador
Celso Ramos. O recém-nascido estava no colo da mãe em um carro que
atropelou o animal que fugia dos farristas pela SC-410.
26/03/2005
Uma tentativa de burlar as barreiras policiais que controlam o tráfego de
animais com destino à farra do boi resultou em um boi morto a tiros e
confronto entre PMs e cerca de 150 farristas, no Bairro São Pedro, em
Navegantes.
"As pessoas não
dão a mínima para o turismo no Estado"
Entrevista: Rosemary da Silva,
vítima da farra do boi
Agência RBS - Como foi que o boi chegou perto de vocês?
Rosemary Aparecida da Silva - Estávamos sentados num grupo de cerca
de 15 pessoas e de repente vimos aquele animal vindo do escuro, do nada.
Saímos correndo e eu fui atingida. O boi caiu, pois o chão estava liso, e
me acertou nas pernas. Fiquei embaixo dele, que me acertou ainda uma
chifrada no tornozelo esquerdo.
Agência RBS - Há machucados aparentes, mas tem outros ainda pelo
corpo?
Rosemary - As minhas costas estão muito doídas e raladas. Imagina
só um boi sobre você. Fora isso, há várias escoriações. Me indigna ainda o
atendimento de resgate ter demorado tanto. Por sorte, uma colega de
excursão é especialista no assunto e me prestou os primeiros-socorros.
Agência RBS - Você acha que isto compromete a imagem da cidade?
Rosemary - Claro. Estamos em 45 pessoas numa excursão e não creio
que voltarão. Se estivéssemos de carro, já teríamos voltado.
Agência RBS - Que lição você tira deste acontecimento fatídico?
Rosemary - Que, infelizmente, as pessoas não dão a mínima para o
turismo, a principal fonte de renda de boa parte desses municípios
litorâneos. Falta policiamento para coibir estas práticas e isto me
decepciona.
Multimídia
PM diz que vai
coibir o crime em SC
O subcomandante da Polícia Militar (PM), coronel Edson Souza, afirmou
ontem que ações preventivas já estão sendo desenvolvidas para coibir a
farra do boi. Entre elas, elencou, está a promoção de campanhas
educativas, formação de barreiras em acessos a comunidades onde a
atividade é mais arraigada e o mapeamento de locais onde há os chamados
mangueirões - arenas de madeira onde os animais ficam confinados.
Souza garantiu que a PM "não fará vistas grossas" e que, em último caso,
vai reprimir a farra com o uso da força, se isso for necessário. O coronel
pediu à população que auxilie a polícia, denunciando locais onde estejam
acontecendo farra.
- Existe uma lei que diz que a farra é crime e nós (da PM) vamos cumpri-la
- avisa o subcomandante.
Uma fonte ligada à cúpula da PM, que pediu para não ser identificada,
explicou que a corporação está numa "situação muito difícil". De um lado,
explicou, entidades de defesa dos animais fiscalizam o cumprimento da
ordem do Supremo Tribunal Federal (STF); do outro, agentes políticos
incentivam a prática e temem que, numa eventual ação da PM em local de
farra, o confronto acabe deixando vítimas e prejudicando as aspirações
eleitorais.
Um encontro entre representantes das polícias Civil, Militar, Cidasc e a
Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) está previsto para a próxima semana. O
dia, hora e local serão decididos pelo secretário da Segurança Pública,
Ronaldo Benedet.
Os farristas
tentam impedir a ação da polícia
De acordo com o chefe do Centro de Comunicação Social do comando da PM em
Florianópolis, coronel Mário César de Oliveira, um dos entraves para
impedir a farra do boi é a idéia de manutenção de uma tradição secular.
- Há uma lei que diz: farra do boi é crime. Mas todo ano é a mesma novela.
Os farristas tentam impedir a ação da polícia - disse o coronel.
Em 2004, um grupo de homens fechou o acesso principal de Porto Belo com
pneus, móveis usados e sarrafos em retaliação a uma suspensão provisória
de entrada de gados na cidade. Conforme Oliveira, um carro policial que
tentou desobstruir a passagem foi destruído.
- O pior é que todos nós sabemos que políticos e empresários compram bois
e entregam aos farristas ao invés de impedir o ato - disse.
O governador Luiz Henrique foi procurado para falar sobre o assunto, mas
não foi localizado.
Turistas não
aprovam a prática
MICHAEL GONÇALVES/ Governador
Celso Ramos
Após a declaração do diretor de Marketing da Santur, Valdir Walendowsky,
"que a farra do boi não prejudica o turismo no Estado e é responsável por
uma demanda", o Diário Catarinense ouviu alguns visitantes.
Três famílias de turistas de outros estados foram entrevistadas em
Governador Celso Ramos, principal foco dos farristas, e ninguém manifestou
o interesse em participar de uma farra.
A tradição açoriana é proibida por uma decisão do Supremo Tribunal Federal
(STF), desde 1997, mas nossos governantes pouco fazem para controlar os
maus-tratos contra os animais. Políticos da esfera municipal chegam a
financiar a tradição com a compra de bois e a construção de mangueirões
(espaço destinado para a farra).
O empresário gaúcho André Superti, de 40 anos, está hospedado com sua
esposa no Balneário de Palmas há oito dias. Ele disse que acompanhou pelo
noticiário o acidente com uma turista paulista e repudia a prática.
- Não sabia que Governador Celso Ramos era uma das cidades catarinenses
onde mais se realiza a farra do boi. Optamos em passar um período de
férias nesta região pelas belezas naturais. Se eu tivesse conhecimento
talvez teria escolhido outro roteiro - afirmou o empresário.
Já o administrador paranaense José Álvaro de Aguiar, de 43 anos, lamentou
o incidente com a turista paulista em Itapema. Aproveitando a praia com
familiares e amigos, disse que não retornaria àquela cidade.
- Se eu souber que a farra está acontecendo vou embora na mesma hora e não
volto mais. Essa selvageria tem de terminar de uma vez. Pessoas inocentes
são feridas e mortas e os governantes continuam falando em casos isolados
- lamentou.
A farra do boi também traz preocupação para o casal Walter Flores e Silvia
Sales, de Passo Fundo (RS). Silvia, que é bancária, chegou a ficar
preocupada com a farra realizada nas principais ruas do município.
- Se tivermos a infelicidade de cruzar com a farra, vou embora da cidade
na mesma hora. Aliás, acho pouco provável que alguém venha de outro estado
para participar desta crueldade - afirmou a bancária.
Atividade flagrada
em Ganchos
MICHAEL GONÇALVES
Deveria ser mais uma noite de descanso para um casal residente em Palhoça,
mas a noite terminou em correria e na morte de um boi, em Governador Celso
Ramos, na Grande Florianópolis.
Uma dona de casa, de 29 anos, foi na companhia do marido até um bar na
Praia de Ganchos quando viu passar na estrada um caminhão com três bois. A
notícia da farra se espalhou com velocidade e o terreno de uma casa virou
um mangueirão.
Desesperada com a crueldade sofrida pelos animais, a dona de casa tentou
chamar a polícia, mas foi contida pelo marido.
Ela contou que, depois de apanhar e correr por alguns minutos, o animal
preferiu pular uma cerca de arame farpado com mais de um metro de altura.
Mesmo machucado, o boi tentou fugir por uma rua sem saída.
- Depois de cinco minutos, escutei um tiro e descobri que o animal foi
morto. Por coincidência, passava no local um carro da Polícia Militar com
quatro policiais e contei a história para eles, mas eles passaram pelo
local e nada fizeram - contou.
Tradição está perdendo o significado, diz morador
O funcionário público Henrique Marcelino Neto, 55 anos, nasceu em
Governador Celso Ramos e reconhece que em certas regiões a tradição está
perdendo o significado. Segundo ele, a farra deveria ser praticada somente
na Quaresma, mas algumas comunidades estão perdendo o senso de
responsabilidade.
- Nas comunidades de Palmas e Armação, a farra só acontece dentro da
Quaresma, mas em Ganchos é praticamente o ano inteiro. Tudo é motivo para
soltar um boi - contou o funcionário público.
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