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fonte:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/10/362132.shtml
Por Daniel Lima - www.anovademocracia.com.br 10/10/2006 às 11:03
O criador da vacina contra a Leishmaniose, doença causada por
protozoários do gênero leishmânia e que afeta 350 milhões de
pessoas em todo o mundo, professor Wilson Mayrink, luta há mais de
30 anos para que o Ministério da Saúde a produza e inclua no
calendário brasileiro de imunização. Enquanto isso não ocorre, a
doença se espraia, fazendo a festa da indústria farmacêutica
alienígena.
Publicado em:
A Nova Democracia - Ano 3, n.25, Julho de 2005
http://www.anovademocracia.com.br/2510.htm
Laboratórios estrangeiros: vacinas
Leishmaniose se alastra por irresponsabilidade
Daniel Lima
O criador da vacina contra a Leishmaniose, doença causada por
protozoários do gênero leishmânia e que afeta 350 milhões de
pessoas em todo o mundo, professor Wilson Mayrink, luta há mais de
30 anos para que o Ministério da Saúde a produza e inclua no
calendário brasileiro de imunização. Enquanto isso não ocorre, a
doença se espraia, fazendo a festa da indústria farmacêutica
alienígena.
As pesquisas do professor Mayrink, que em 1963 organizou o
Laboratório de Leishmaniose do Departamento de Parasitologia do
Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas
Gerais (ICB/UFMG), resultaram no desenvolvimento da Leishvacin, a
única vacina existente no mundo de comprovada eficácia contra esse
protozoário. Só que o descaso das sucessivas gerências para com a
saúde impede a sua produção em larga escala.
Um pesquisador do Instituto Bacteriológico de São Paulo, o
professor Salles
Gomes, lançou em 1939 a idéia de se produzir uma vacina contra a
leishmaniose. A primeira experiência em campo foi realizada um ano
depois,
em Presidente Prudente, pelo parasitologista Samuel Pessoa, da
Secretaria de Saúde de São Paulo, e a partir desses estudos,
Mayrink e sua equipe desenvolveram a vacina.
Mais pobre, pior
No Brasil, só na região Sul os casos são de pequena monta. As
áreas de maior ocorrência localizam-se no Norte, Nordeste e parte
Norte de Minas Gerais, principalmente nas regiões agrícolas,
favelas e localidades negligenciadas de saneamento básico. Somente
no Brasil, estima-se o aparecimento de 25 mil novos casos por ano.
Em Minas Gerais, mais de 400 municípios já detectaram a presença
da doença, que contamina 12 milhões de pessoas em 88 outros países
semicolonizados.
Já erradicada nos países de governos imperialistas, a Leishmaniose
tem origem silvestre. É transmitida pelo lutzomya (birigüi ou
mosquito-palha), inseto com especificidade biológica para
transmitir o parasita ao homem, quando ele invade a floresta e
destrói o habitat natural do mosquito. Além disso, o cachorro,
animal domesticado pelo homem, é o principal hospedeiro
do protozoário transmissor da Leishmaniose braziliensis.
Uma simples picada já é o suficiente para transmitir a doença que
começa sua manifestação através de vários sintomas como febre
contínua, perda de apetite, crescimento exagerado do fígado,
lesões na pele e anemia, podendo até mesmo levar à morte do homem
e de animais domésticos.
A doença se apresenta de modo diverso, tanto quanto à manifestação
quanto ao grau de periculosidade. A do tipo tegumentar, mais comum
em Minas Gerais, provoca a decomposição de parte dos tecidos do
corpo e a deformação da pessoa. As feridas migram da região
infectada para outras partes do corpo.
Há também a mucotegumentar, que ataca as mucosas nasal e
faringiana, com casos extremos de total deformação do rosto; a
visceral, que atinge baço, fígado e medula óssea; e a difusa, que
ataca a pele, causando um tipo diferente de lesão, até bem pouco
tempo tida como incurável, mas combatida com sucesso pelo
tratamento desenvolvido por Mayrink, usando a vacina em combinação
com imunoquimioterapia.
Experiência de 50 anos
Orgulhoso pai de dez filhos (seis adotivos) e formado em Medicina
em 1951
pela UFMG, Wilson Mayrink recorda:
Passei por várias áreas da Medicina mas nunca me encontrava, até
me ver largado em um laboratório. Foi aí que desenvolvi o
interesse pela pesquisa.
Como não gostava quando meus pacientes perguntavam o preço da
consulta ou do tratamento, parei de clinicar e virei cientista de
vez.
O interesse de Wilson Mayrink pela Leishmaniose foi despertado em
1962, com a visita ao Brasil do professor Saul Addler, da
Universidade Hebraica de
Jerusalém. O médico mineiro logo se juntou à equipe de Adler na
montagem de um centro de estudos em Leishmaniose e começou essa
caminhada que já dura mais de 40 anos de atenção principalmente ao
povo empobrecido. Em 1965, Mayrink e o epidemiologista Paulo
Araújo Magalhães, da SUCAM -
Superintendência de Campanhas de Saúde Pública -, iniciaram
estudos na Zona da Mata sobre a profilaxia da Leishmaniose
visceral, ou calazar, doença causada pelo protozoário Leishmania
donovani. De 1965 e 1971, trataram cerca de 360 casos, somente em
Caratinga (MG). Como a exterminação dos cães tem tanta importância
para a erradicação, naquela época foram examinados 180 mil cães
sendo 7% sacrificados.
Mayrink recorda que já precisou ameaçar uma pessoa de apresentá-la
como responsável pela possível contaminação de toda uma região,
para obter concordância dela para o sacrifício de seu cão. Não
imaginava que um
cachorro tivesse papel tão importante para uma família, comenta.
Para evitar a propagação da doença, promoveu a dedetização das
áreas residenciais e estabeleceu desde então rigorosa vigilância
epidemiológica. Em seis anos de trabalho, conseguiu controlar o
calazar, naquele município, aplicando a vacina nos camponeses
antes de irem para a lavoura. Mayrink afirma que o resultado só
não foi obtido antes devido à ignorância dos médicos e o descaso
das autoridades.
- A maioria das pessoas não acreditava que pudéssemos chegar a
esses bons resultados, observa. E muitos ainda não dão valor à
vacina por ter sido desenvolvida por brasileiros sem apoio e sem
as condições de trabalho dos estrangeiros que, mesmo assim, não
conseguiram resultado tão satisfatório.
Autoridades & mistérios
A partir de 1971, os esforços se concentraram na coordenação de um
grande estudo, ainda na região de Caratinga, para testar a
eficácia da vacina contra a Leishmaniose tegumentar americana (LTA),
Viana (ES) Manaus (AM) e Belo Horizonte (MG). Após a realização
dos primeiros testes, ocorreram inúmeros aperfeiçoamentos na
vacina. Na Amazônia, uma região endêmica, foram realizados testes
com soldados, obtendo-se êxito total.
Em 1987 o então superintendente de Campanhas de Saúde, Josélio de
Carvalho Branco, informou ao ministro da Saúde, Roberto Santos,
sobre o sucesso da aplicação em larga escala da Leishvacin . A
Organização Mundial da Saúde - OMS - autorizou a fabricação da
vacina pela extinta Bioquímica do Brasil S/A - Biobrás.
Passaram-se quatro anos e o Ministério da Saúde suspendeu a
autorização para a produção, sem informar os motivos.
Quando a produção foi desautorizada pelo Ministério da Saúde, um
dos maiores parasitologistas do país, o professor Amílcar Viana
Martins, afirmou que a vacina tinha grande valor social,
científico e econômico.
A vacina foi reconhecida até pela revista do Programa de Pesquisa
de Doenças Tropicais da OMS, mas apesar disto Mayrink tem que
arcar com recursos próprios para o desenvolvimento de seu
trabalho, com destaque para a aplicação, com apoio da UFMG,
Fapemig - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
- e UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto.
irradiada
de Caratinga para numerosos municípios vizinhos. No Ambulatório
Paulo Magalhães, em Caratinga, Mayrink ainda cuida dos pacientes,
usando a vacina produzida por ele no laboratório da UFMG e
medicamentos cedidos pela Funasa - Fundação Nacional de Saúde -,
Biomm, Secretaria Municipal de Saúde, entre outras. Atende de 15 a
60 novos casos por mês. Alguns precisam percorrer até 200
quilômetros para receber o tratamento. Muitos desistem e o próprio
Mayrink já custeou deslocamentos de pacientes. O combate e o
tratamento da doença ainda são artesanais. O medicamento padrão à
base de antimônio, tem o nome de Glucantime. É tóxico, causa enjôo
e problemas no fígado. Esse remédio foi criado em 1912 pelo
pesquisador Gaspar Viana, incorporando o tártaro hermético ou
antimonial no tratamento, mas foi sendo aperfeiçoado até chegar-se
ao antimônio pentavalente, comercializado no Brasil por um
laboratório com sede na Inglaterra, a Rhodia. O Ministério da
Saúde custeia o fornecimento, mas não há ampolas suficientes nos
hospitais e postos de saúde. A incompetência é tamanha que a
distribuição não leva em consideração a ocorrência da Leishmaniose
em cada região.
O Paraná não tem Leishmaniose e recebe a mesma quantidade de
antimônio que o estados do Norte e Nordeste, que são grandes focos
da doença, critica Mayrink.
O uso do medicamento apresenta restrições para gestantes, idosos,
cardíacos, recém-nascidos, diabéticos e portadores de doenças
imuno-depressoras. Só em 2000, o Ministério da Saúde registrou 14
mortes causadas pelo uso do antimônio e, em 2001, o número
aumentou para 17. Segundo Mayrink os médicos não estão preparados
para lidar com a doença e o seu tratamento.
Como a vacina desenvolvida por Mayrink não tem contra-indicações,
ela é a única maneira de tratar pacientes que não podem receber o
antimônio. De acordo com o professor, o resultado final é de
praticamente 100% de cura e, quando antimônio e vacina são usados
juntos, além da diminuição da exposição ao antimônio, o tempo
gasto é menor do que quando se usa só o antimônio. Já quando
somente a vacina é usada no tratamento, o processo de cura é mais
lento, pois depende do estado imunológico da pessoa.
A vacina é capaz de levar à cura da lesão e também pode produzir
um estado de resistência à doença, observa Mayrink, sem
compreender a atitude do governo, pela qual quem paga é o povo
trabalhador do campo sempre mais empobrecido.
Já aposentado, o professor Wilson Mayrink ainda vai diariamente ao
ICB para dar continuidade às pesquisas. Nenhuma administração
investiu até hoje neste trabalho, e todos os que tomam
conhecimento dele afirmam que, se a Leishmaniose contaminasse
gente rica, não faltariam recursos para financiar dezenas de
pesquisas, como ocorre com a diabetes.
No Brasil não se permite ter saúde pública, não há competência ?
desabafa
Mayrink.
A Nova Democracia - Ano 3,
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