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01/08/2005
Pelo menos quatro cachorros foram abatidos em terreno baldio
da zona sul
LÚCIA PIRES
Notícias - ZERO HORA
Fome e solidão foram os argumentos de um homem para explicar sábado
estar se alimentando da carne de vira latas na Capital. Lauro
Pereira Ribeiro, 28 anos, abateu pelo menos quatro cachorros em
pouco mais de 10 dias em um terreno baldio da Zona Sul.
Moradores e comerciantes da Avenida Cavalhada denunciaram na tarde
de sábado uma situação que se tornou insustentável. Um conhecido
morador de rua da região passou a se alimentar dos cães que vagavam
pelas redondezas.
O primeiro animal, segundo testemunhas, foi recolhido por Ribeiro
havia cerca de 10 dias depois de ter sido atropelado. Na
quinta-feira passada, a comerciante Jacqueline Marchese, 41 anos,
viu Ribeiro com outros dois animais mortos entrando no terreno.
– Eles já estavam sem a pele. Ele tira o couro inteiro com um
espelho e lava a carne em uma torneira que fica do lado de fora de
um comércio. Depois fica lá assando e comendo – contou Jacqueline.
Por volta das 15h, a fumaça no interior do terreno alertou novamente
os moradores. Ribeiro havia iniciado mais uma fogueira para se
alimentar. A carne estava sendo cozida com cebolas em uma lata.
Antes mesmo de retirar do fogo, Ribeiro provava o caldo com uma
colher e não se surpreendeu com a chegada da vizinhança e da
reportagem. Sem nenhuma cerimônia, continuou a preparar a sua
comida.
– O que tu queres que eu faça? Eu estou com fome e vou comer. Ele
até era meu amigo, mas estava muito sozinho e triste (o cachorro) –
disse o homem de 28 anos, contando ainda como matou o cão com uma
pedra.
Ao lado do fogo e da carne crua que ainda ia ser consumida, a pele
de um cachorro preto e branco esticada como um tapete em uma pedra
foi reconhecida por duas mulheres. A funcionária pública Dilcéia
Souza Alves, 56 anos, e a comerciante Rosa Maria Norte Pereira, 47
anos, identificaram o cão Igor, um dos 10 animais de rua que
costumam alimentar todos os dias.
– Aquele é o Igor. Ele dormia nas casinhas que fizemos e acompanhava
as crianças do bairro. Estamos revoltados e com medo dele. Esse
homem precisa de ajuda e ninguém faz nada. A Brigada já disse que a
família dele é que deve fazer alguma coisa – disse Dilcéia.
O terreno onde Ribeiro dorme e se alimenta é protegido por um portão
e fica ao lado da Associação Assistencial Paulo Rogowski. Ribeiro
tem acesso livre ao local que seria de propriedade da entidade.
Por volta das 17h, o grupo de moradores chamou pela segunda vez a
Brigada Militar, que compareceu ao local. Dois soldados do 1º BPM
levaram Ribeiro para Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul, na Vila dos
Comerciários, zona Sul da Capital. Conforme a assessoria da
Secretaria Estadual da Saúde ele foi medicado pelo psiquiatra de
plantão e ficou em observação por 24 horas, onde receberia
alimentação e higiene.
Bia Santos, diretora técnica da Fasc, se surpreendeu com o caso:
– Nunca ouvi falar do assunto. Nenhum morador da Cavalhada nos
comunicou. É um caso para o atendimento de rua da Fasc. Essa é uma
situação nova e nunca registrada. Pelo contrário, muitos moradores
de rua não querem ir para o abrigo porque não querem deixar seus
cachorros. Já tivemos de abrigar cachorros por conta disso. Este é
um caso totalmente particular e vamos assumir a situação.
http://www.clicrbs.com.br/clicnoticias/jsp/default.jsp?tab=
00002&newsID=a914182.htm&subTab=00010&uf=1&local=
1&l=&template=2503.dwt§ion=Not%EDcias
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