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O contrato de
cooperação técnico-científica firmado entre o Criadouro
Tropicus e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, do
município do Rio de Janeiro, será investigado pela Câmara de
Vereadores. O presidente da casa, Ivan Moreiro, aprovou a
criação de uma CPI para apurar os detalhes do contrato. O
criadouro está registrado no nome do secretário municipal de
Defesa dos Animais, o ator Victor Fasano.
De acordo com o jornal O Globo, o convênio do criadouro com
a prefeitura, que prevê o repasse de R$ 260 mil até abril de
2006, foi assinado quando Fasano já ocupava o cargo na
prefeitura. A comissão parlamentar de inquérito foi
requerida pelo vereador Luiz Humberto (PFL-RJ) que é da base
governista.
http://exclusivo.terra.com.br/interna/0,,OI784199-EI1118,00.html
Como isso começou
Rio, 26 de
novembro de 2005
Mais
dinheiro para aves
Luiz Ernesto
Magalhães
O convênio de cooperação técnico-científica assinado entre a
prefeitura e o criadouro Tropicus, do ator e secretário
municipal de Defesa dos Animais, Victor Fasano, poderá ser
renovado por mais três anos e receber até R$ 780 mil
adicionais em recursos públicos. A aplicação da verba na
entidade, espécie de santuário em Guaratiba para aves em
extinção, foi autorizada na última segunda-feira, em reunião
da Comissão Gestora do Fundo Municipal de Conservação
Ambiental.
Na ata da reunião, ficou acertado que a renovação do
contrato, que expira em abril de 2006, dependerá apenas do
aval do prefeito Cesar Maia. Ontem, Cesar se desdobrou em
elogios a Fasano. Mas não descartou a hipótese de suspender
o contrato, se forem detectadas irregularidades. Segundo
ele, a Controladoria Geral do Município está analisando o
caso:
— A razão para convidá-lo para ser secretário foi o trabalho
que fazia de preservação de espécies raras. Ampliamos o
conceito da secretaria, que ficava muito nos gatinhos e
cãezinhos. No fim de 2004, autorizei um programa de
interesse do Zôo. Mas, a partir da posse (de Fasano), o
controle (do criadouro) deveria ter sido mudado no prazo
possível — disse.
Como O GLOBO noticiou ontem, Fasano assinou em abril, quando
já ocupava a Secretaria de Defesa dos Animais, um contrato
no valor de R$ 260 mil, que estão sendo repassados pela
prefeitura para manutenção do Tropicus e produção de
material científico sobre aves, além de folhetos com
informações sobre animais, distribuídos ao público no Jardim
Zoológico. Ontem, Fasano passou o dia em reuniões e não quis
dar entrevistas.
Técnicos foram contra o contrato
O secretário municipal de Meio Ambiente, Ayrton Xerez, que
presidiu a reunião do Fundo de Conservação, disse ontem que
a inclusão do Tropicus tomou como base apenas a sua
qualificação técnica.
— Desconheço qualquer outra entidade que desenvolva um
trabalho tão bom quanto o Tropicus. Quanto à conveniência de
Fasano, como secretário, receber recursos públicos para algo
dirigido por ele, a resposta a isso é uma questão de foro
íntimo dele — disse Xerez.
A assinatura do contrato chegou a ser desaconselhada por
técnicos da Procuradoria do Município. Mas a contratação do
Tropicus acabou sendo autorizada após parecer do
procurador-geral do Município, Júlio Horta, que ontem não
quis comentar o caso. Em meio à polêmica, a ONG Verdejar
Proteção Ambiental e Humanismo anunciou que, segunda-feira,
vai entrar nos ministérios públicos estadual e federal com
representações, por improbidade administrativa, contra Xerez
e Fasano:
— Nada justifica enterrar dinheiro público num criadouro
particular de um secretário. Isso é uma imoralidade — disse
Sérgio Ricardo de Lima, diretor da ONG.
O advogado Gustavo de Paula, do Grupo Ação Ecológica (GAE),
disse que o dinheiro do Fundo Ambiental deveria ser gasto na
manutenção dos parques e em projetos como o mutirão de
reflorestamento de encostas. Segundo ele, os recursos atuais
são insuficientes. Dados da ONG Fórum Popular do Orçamento
mostram que em 2005 foi aprovada uma verba de R$ 38.344.471
para a Secretaria de Meio Ambiente. Desse total, R$ 23,6
milhões (61,6%) foram empenhados (reservados para gastar)
até ontem.
— As cercas de metal que demarcavam a APA de Marapendi
(Barra) caíram e não foram repostas. Os parques públicos
também precisam de mais infra-estrutura para receber a
população. Por fim, em lugar de investir na reprodução de
pássaros, porque não na preservação das áreas verdes da
cidade onde eles são mais encontrados? — perguntou Gustavo.
Antecessora de Fasano na secretaria, Maria Lúcia Frotta
defende que todos os recursos para preservação de espécies
ou para aplicação em projetos educacionais sejam coordenados
pelo setor público.
— Com R$ 250 mil por ano, a secretaria implantou cinco
centros de esterilização gratuita de cães e gatos na cidade.
O retorno social da iniciativa é bem maior que investir R$
260 mil na reprodução de aves raras.
A presidente da ONG Fala Bicho, Scheila Moura, engrossa as
críticas:
— A prefeitura deveria se concentrar no controle da
população de cães e gatos. Não tem sentido investir num
projeto para criar animais silvestres na cidade — disse
Sheila, cuja ONG há alguns anos coordenou um programa de
esterilização gratuita de animais domésticos que acabou
sendo adotado por outras cidades do país.
Para advogado, ação por improbidade é possível
Em entrevista na quarta-feira, o secretário municipal de
Defesa dos Animais, Victor Fasano, disse entender que não
cometeu qualquer ilegalidade ao receber verbas da
prefeitura, porque o criadouro Tropicus é uma entidade sem
fins lucrativos e ele não recebe salários. Para Hermano
Cabernite, advogado especializado em administração pública,
a inexistência de remuneração não livra Fasano de uma ação
por improbidade administrativa.
— A lei federal 8.666/93 (que disciplina licitações
públicas) considera crime o servidor patrocinar, direta ou
indiretamente, interesse privado perante a administração.
Mas isso precisa primeiro ser confirmado por decisão
judicial que invalide o contrato. Neste caso, a lei prevê
pena de detenção de seis meses a dois anos, além do
pagamento de multa — explicou Hermano.
Já o vereador Édson Santos (PT) disse ontem que vai pedir ao
Tribunal de Contas do Município que faça uma inspeção no
contrato do criadouro Tropicus com a prefeitura:
— A relação que o secretário mantinha com o Tropicus no
momento da assinatura do contrato é absurda. Quem quer se
dedicar à administração pública, deve abrir mão de seus
interesses particulares — disse o vereador. |