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Francês (André Milotic) faz safári no PANTANAL.
VÍDEO MOSTRA A MORTE DE UMA ONÇA COM REQUINTES DE CRUELDADE!!!
"Uma das cenas do vídeo mostrava uma onça pintada acuada em um
galho enquanto os caçadores, a menos de um metro, brincavam de
mirar as armas em seus olhos. Enquanto isso, o francês elogiava a
adrenalina da ação. O tiro derrubou, mas não a matou. Mais de 20
cães terminaram a carnificina. "A marca dele é o requinte de
crueldade, como capar o animal antes de matá-lo. A emoção fez
parte do pacote", descreve Borges.
Nem um pouco selvagem
O ECO -
http://www.oeco.com.br/ 03.12.2005
Carolina Mourão
carolmourao@oeco.com.br
"É ótimo saber que o Brasil tem um safári deste nível, onde se
pode abater animais de grande porte. Obrigado pelo passeio". Foi
assim que o francês André Milotic agradeceu pela temporada de
safári no Pantanal. Gentilmente, o brasileiro que promoveu os dias
de caçada se despediu antes da saída do vôo clandestino: "Volte
sempre. Estamos às ordens".
Teria sido por vingança de namorada que uma fita de vídeo,
mostrando uma caçada a onças no Pantanal, foi parar nas mãos do
programa do Ratinho, do SBT, em fevereiro do ano passado. O filme
mostra cenas de crueldade explícita e pura covardia durante a
matança de três onças pintadas na fazenda São Jorge, em Lambari do
Oeste (MT). Em 2003, uma força-tarefa foi montada envolvendo
Ibama, Ministério Público Federal e a Polícia Federal, que
identificaram os autores do crime, entre eles, o próprio francês.
Além da grande quantidade de armas deixadas para trás na sede da
fazenda, a força-tarefa encontrou uma onça pintada de 100 quilos
amarrada como um cachorro. Mas não houve flagrante. "Ele fugiu
pouco antes. Deixou o animal de estimação e o material de
trabalho", diz Roberto Borges, chefe da Divisão de Fiscalização de
Fauna do Ibama. A onça abandonada é um grande macho, Gavião, que
teve as garras extraídas pelo provável caçador de seus pais.
Segundo depoimento do homem que promoveu o safári gravado em vídeo
- um veterinário, diga-se de passagem - Gavião passou seus 11 anos
amarrado por um cabo de aço com apenas 20 metros de extensão. E só
depois de dois anos de investigações, a força-tarefa conseguiu
retirá-la dali. Na última quinta-feira, dia 1. de dezembro, Gavião
conheceu, bem longe do antigo endereço, seu novo abrigo.
Nova vida
Eu estive lá para acompanhar sua chegada. Já sem a corrente que
lhe marcou o pescoço, me fitou por 40 minutos, e depois veio em
minha direção. O animal estava assustado, e me assustou. Foi
também a minha primeira vez com onças. Dei a sorte de pegar também
o primeiro mergulho do animal, que ao longo da vida só tomou
alguns banhos de balde ou mangueira. O reservatório limpo ao lado
do abrigo de pedras reteve a atenção da onça, que não sabia se
bebia a água ou se nadava. Depois que saiu da água, aproximou-se
de novo, e eu toquei seu pêlo e sua enorme cabeça, "maior do que o
padrão", como diz o tratador dos animais.
"Engraçado onça com nome de Gavião, gavião sem garra", reparou.
"Pior é que ele não pode subir em troncos verticais e nem dividir
o recinto com outras porque, se tiver briga, ele pode até morrer
sem defesa", avalia o funcionário que parece entender mais sobre
onças do que o veterinário que a mutilou.
Gavião estranhou as grades, queria transpô-las o tempo todo. O
recinto tem 100 metros quadrados. Um alívio para quem vivia
acorrentado, mas as dimensões ainda estão muito longe do que ela
realmente precisa: 25 a 80 quilômetros quadrados por indivíduo. De
qualquer maneira, ele foi o oitavo e último felino que o criadouro
conservacionista do
http://www.nex.org.br/
Instituto Não Extinção (NEX) vai abrigar, ao menos por enquanto.
Segundo Cristina Gianni, presidente da ong, os recursos são
limitados e, sem apoio, fica impossível salvar esses animais que
não têm mais condições de viver na natureza. "Uma onça custa R$
800 por mês, ou R$ 9.600 por ano.
Quero construir um abrigo maior, de até 200 metros quadrados para
o Gavião, mas para isso preciso do apoio de empresas, que podem
adotar o animal e transformá-lo em 'selo ambiental'", diz Gianni.
No NEX, os técnicos e veterinários promovem atividades
ocupacionais para manter os felinos ativos, como esconder a carne
dentro de um coco. O intrigante é a distância que o animal teve de
percorrer para ser abrigado.
"Os recintos do Pantanal eram menores. O melhor que a gente
encontrou e que pôde receber a onça foi o NEX, no município de
Corumbá de Goiás, a cerca de 80 quilômetros do Distrito Federal. É
preciso lembrar que esses lugares estão com sua capacidade
esgotada para receber mais animais. Gavião teve sorte porque
chamou a atenção da opinião pública", conta Borges.
Uma das cenas do vídeo mostrava uma onça pintada acuada em um
galho enquanto os caçadores, a menos de um metro, brincavam de
mirar as armas em seus olhos. Enquanto isso, o francês elogiava a
adrenalina da ação. O tiro derrubou, mas não a matou. Mais de 20
cães terminaram a carnificina. "A marca dele é o requinte de
crueldade, como capar o animal antes de matá-lo.
A emoção fez parte do pacote", descreve Borges.
Sem punição
Apesar disso, a maldade não é levada em consideração. "As pessoas
reclamavam quando o crime ambiental era inafiançável. É claro que
o sujeito não ia ficar preso, mas pelo menos ficava detido alguns
dias". Hoje, ela é branda demais para os casos mais cruéis, cada
vez mais comuns. "A pena hoje varia de 6 meses a um ano, na
teoria, mas nem detidos eles ficam. Vão lá, prestam depoimento, e
depois são obrigados a pagar uma cesta básica ou algo parecido",
lamenta. "Essa sensação de impunidade acontece também no meio
ambiente. A gente investiga, gasta dinheiro do erário, investe, e
termina em nada. É muito frustrante", protesta. Borges sugere a
modificação da lei, abrangente e superficial, para que situações
assim não se repitam.
Mas para prender o responsável pela crueldade há sim uma saída: a
condenação pelo fato de ter tantas armas de alto impacto de forma
ilegal na fazenda.
"Eram equipamentos caros, para fins específicos de abate. Enchemos
a carroceria do carro da apreensão com esse material", calculou
Borges. De acordo com o artigo 12 do Estatuto do Desarmamento, a
posse ilegal de arma de fogo de uso permitido pode levar de 1 a 3
anos de prisão e multa. Mas, se forem apreendidas armas mais
sofisticadas, de uso restrito, a pena pode chegar a seis anos,
além da multa.
Pela quantidade de armamento e pelas palavras do cliente francês
do safári
registradas no vídeo, a atividade era tipicamente turística e
causava a morte de muitos animais. Motivo para o Ibama continuar
de olhos abertos.
"Esse safári pareceu um caso isolado, mas não se pode garantir
isso, com uma legislação que acaba incentivando os criminosos",
diz. Borges informou que, por causa das investigações, não pode
revelar o nome do dono do safári, que está livre. Apesar do vídeo
mostrar a morte de animais em extinção, o que é crime
inafiançável, por enquanto o instituto não pode fazer nada contra
o fazendeiro. Em 1996, ao descobrir que havia uma onça em sua
propriedade, o Ibama de Mato Grosso o fez assinar um termo de
responsabilidade e, como não tinha para onde levá-la, regularizou
a situação. Gavião pertencia a ele. |
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