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Elas são pelos animais
(Revista "Vidas", do
"Correio da Manhã", edição de 21 de Maio de 2005)
Para uns é crime. Para outros status. A verdade é que a utilização
de peles verdadeiras está a agitar a opinião pública, pelo que
várias famosas decidiram agir em defesa das únicas vítimas desta
“feira de vaidades”: os animais.
ELSA RAPOSO, APRESENTADORA DE TV E MODELO: “DEVIA HAVER UMA LEI
A PROBIR O USO DE PELES”
É uma das poucas coisas, senão a única, de que Elsa Raposo se
arrepende na vida: o facto de, uma vez, nos seus tempos de
manequim, ter desfilado com peles verdadeiras. “Na altura não
tinha consciência da crueldade que implicava”, justifica a modelo,
que nunca se deixou tentar por este tipo de consumismo. “Tal como
é imoral contribuir para a morte de milhões de animais, também me
revolta o facto das pessoas darem uma fortuna por um casaco de
peles, quando existem tantas crianças a passarem fome. Por que não
dar esse dinheiro a uma instituição? Certamente viveriam com uma
consciência mais tranquila e feliz”. Para Elsa Raposo os
estilistas são os grandes culpados por esta moda das peles. “Acho
que devia haver uma lei que os proibisse de as usarem.”
PAULA NEVES, ACTRIZ: “PELES VERDADEIRAS? LEVE UM ANIMAL PARA
CASA!”
“Sou a favor do uso de peles verdadeiras, desde que estejam vivas
e, de preferência, em casa!” É assim que Paula Neves marca a sua
posição relativamente ao uso de peles de animais. “Tenho sempre o
cuidado de, quando vou às compras, certificar-me de que os
produtos são 100 por cento sintéticos”, salienta, sublinhando que
as peles artificiais são muito mais bonitas do que as autênticas.
Na União Zoófila, um local que descreve como sendo de visita
obrigatória, Paula Neves mostrou que, melhor do que comprar um
casaco de peles, é adoptar um animal. “Se quiserem usar peles
visitem esta instituição”, revela a actriz, que fez questão de
mostrar como se sente um animal enjaulado. “É horrível. Como é que
certas pessoas conseguem continuar a ser cúmplices do sofrimento
de seres inocentes. Valerá a pena?”
PATRÍCIA BULL, ACTRIZ: “NÃO PASSA DE UMA ATITUDE RETRÓGRADA E
PRIMITIVA”
“As pessoas devem deixar de olhar tanto para o seu umbigo e olhar
mais para a natureza que as rodeia”, afirma Patrícia Bull,
salientando que o uso de peles verdadeiras é totalmente
desnecessário nos dias que correm. “Acho que não passa de uma
atitude retrógrada e primitiva. Hoje em dia, existem inúmeras
alternativas às peles verdadeiras, tão bonitas quanto as
autênticas, pelo que não há qualquer justificação para causar
sofrimento a milhões de animais”, assinala, acrescentando que
existem, nomeadamente, alternativas com materiais recicláveis, que
evitam destruir ainda mais a natureza, como é o caso das originais
sandálias que usa na fotografia e que foram feitas em papel
reciclado pelo artista plástico David Oliveira. “O nosso planeta
já atingiu um ponto sem retorno. Será que vamos continuar a
cometer os mesmos erros?”
ADELAIDE DE SOUSA, ACTRIZ: “BASTA REFLECTIR UM POUCO PARA MUDAR
DE IDEIAS”
Durante todo o tempo que viveu nos Estados Unidos, Adelaide de
Sousa foi constantemente ‘bombardeada’ por campanhas da PETA, que
tentavam sensibilizar as pessoas para o boicote ao uso de peles de
animais. Portugal, contudo, ainda peca pela falta de informação.
“Não existe uma consciência comum de que temos um mandato para
gerir e proteger o nosso meio natural”, afirma a actriz. “Basta
reflectir um pouco sobre o assunto ou ver as imagens divulgadas
pelas associações de defesa dos animais para mudar de ideias.
Custa-me a acreditar que um ser humano não se compadeça do
sofrimento de um animal inocente”, diz, olhando para Naná, a sua
cadela de 13 anos que encontrou abandonada na estrada. “Só de
saber que até cães e gatos são utilizados neste comércio das
peles.”
FÁTIMA LOPES: ESTÁ NAS HORAS DE AS PESSOAS EVOLUÍREM
“Na moda de luxo, 90 por cento dos estilistas usam peles. Além
disso, desde sempre que o Homem mata animais para se vestir. Não
fui eu que inventei! Está na hora das pessoas evoluírem. Para mim,
matar um animal para comer um bife ou para fazer um casaco é a
mesma coisa. Não noto diferença porque não sou hipócrita, sou
coerente. Vou continuar a usar peles como sempre fiz, desde que
não sejam de animais em vias de extinção. A Associação Animal tem
usado a minha imagem para ter visibilidade. O vídeo que eles
divulgam tem a ver com uma prática na China, quando eu compro as
minhas peles na Europa, onde a morte dos animais é rápida e
indolor.”
PERFIL: Fátima Lopes entrou no mundo da moda aos 26
anos. Em 1992, fez o seu primeiro desfile, dando origem à marca
com o seu nome.
ANA SALAZAR: É UMA CARNIFICINA E UM ATENTADO À HUMANIDADE
“Sou contra o uso de peles por uma questão de valores. Uso peles
falsas porque hoje em dia existem imitações lindíssimas que fazem
o mesmo efeito e evitam a crueldade de matar animais. Achava que o
mundo tinha mudado, mas pelos vistos voltou a estar na moda o uso
de peles como sinal de riqueza. É uma atitude algo primitiva e
retrógrada. Não concordo que outros estilistas o façam porque é
uma carnificina e um atentado à humanidade. Já fui o rosto da PETA
contra o uso de peles de animais na moda. Mas já no início deste
século começou a sentir-se, de uma forma geral, que as coisas que
transmitam a ideia de luxo estão a ser consumidas, sejam elas
quais forem. Enfim, é uma fase.”
PERFIL: Há 25 anos que Ana Salazar é uma estilista
reconhecida internacionalmente e sempre usou peles sintéticas nas
suas colecções.
”CERCA DE 20 POR CENTO DAS PESSOAS CONTINUA INDIFERENTE”
As imagens recentemente divulgadas pela Associação Animal, que
mostram animais a serem electrocutados e esfolados vivos,
despertaram uma onda de polémica em Portugal, onde também existem
estas ‘quintas da morte’. “Existe uma grande quinta de criação de
animais para extracção e comercialização de peles no Cartaxo”,
revela Miguel Moutinho, director executivo da Animal. “Acreditamos
que 80 por cento das pessoas que usam casacos e acessórios em pele
estão mal informadas. Provavelmente, nem lhes ocorre que o casaco
que usam é feito de pele de animais que já tiveram uma vida.
Contudo, também existe uma percentagem de pessoas – cerca de 20
por cento – que, independentemente da informação que recebem, são
pura e simplesmente indiferentes a esta causa”, revela Miguel
Moutinho, alertando para as alternativas. “Existem os tecidos
sintéticos ou de origem vegetal, perfeitamente capazes de compor
todo o tipo de peças de vestuário.”
Helena Isabel Mota e Sónia
Dias |
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