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Por Carin
Homonnay Petti
Seria durante uma passagem pela Grã-Bretanha que o médico e
ativista americano Jerry Vlasak explicaria à Super suas opiniões
sobre a luta pelos direitos dos animais. A entrevista ocorreria na
Inglaterra, durante um encontro promovido por ativistas da Europa
e dos Estados Unidos. Mas o texano radicado na Califórnia nem teve
oportunidade de arrumar as malas. O governo britânico negou seu
pedido de visto, alegando que suas "opiniões perigosas" não são
bem-vindas no país. Ao conversar com a revista por telefone,
Vlasak mostrou por que quando abre a boca assusta autoridades,
aterroriza a indústria farmacêutica e recebe críticas da maior
parte da comunidade científica. Suas idéias são uma amostra do que
muita gente chama de ecoterrorismo. Acha, por exemplo, "moralmente
aceitável" o assassinato de cientistas que utilizem cobaias de
laboratório. "As mortes só ajudariam a causa", afirma.
Quando não está atendendo vítimas de acidente de trânsito, tiros e
facadas num hospital de Los Angeles, Vlasak dá assessoria
científica a entidades como Speak e Shac, duas das mais radicais
organizações antitestes com animais. Atualmente, os grupos tentam
impedir a construção do novo laboratório de cobaias na
Universidade de Oxford e varrer do mapa a Huntingdon Life Sciences,
empresa especializada em pesquisas químicas e farmacêuticas. Entre
os objetivos dos inimigos de Vlasak estão a busca de tratamentos
para doenças como o câncer, diabetes, mal de Parkinson e de
Alzheimer.
Por que você julga ser aceitável atacar
cientistas que estão usando cobaias para desenvolver novos
medicamentos?
Qualquer coisa que detiver essas pessoas é moral e necessária. Não
estamos falando de gente inocente. Eles torturam animais em
laboratórios todos os dias. Não adianta eu parar numa calçada com
um cartaz pedindo o fim dos experimentos. Ninguém vai me ouvir. E
a verdade é que nossas táticas funcionam. A Universidade de
Cambridge desistiu de construir um laboratório porque ficou com
medo dos ativistas - eles também acharam que o sistema de
segurança ficaria muito caro. Uma empresa especializada em
pesquisas já perdeu 63 clientes e fornecedores. Nossa pressão
também já fechou uma fazenda que criava gatos e um canil que
fornecia cães da raça beagle para laboratórios. Nelson Mandela
dizia que a não-violência é uma estratégia, não um princípio
moral. Nós temos o dever moral de fazer o que dá resultados.
Você vê algum limite ético nesse dever?
Não existem limites. Qualquer tática que funcione é legítima.
Alguns cientistas só vão acabar com os experimentos se temerem
pela própria vida. É uma pena que seja assim. O que fazemos não é
muito diferente de assassinar nazistas como Hitler, Himmler ou
Goebbels. Se matássemos os três e salvássemos 6 milhões de judeus,
ninguém diria que é errado. Creio que o mesmo raciocínio vale para
animais. Matar dois, três, cinco ou dez (pesquisadores) e salvar
milhões de vidas inocentes é moralmente aceitável.
Como a morte de um cientista será capaz
de trazer benefícios aos animais?
Observe qualquer movimento de luta contra a opressão, como o
combate ao apartheid na África do Sul e a escravidão nos Estados
Unidos. Sempre que uma força exerce pressão sobre outra, a mais
fraca recorre à violência. E os resultados acontecem. Até agora
ninguém morreu, mas isso ainda vai acontecer. Não estou pedindo
isso, apenas prevendo. Você não pegaria em armas para impedir que
crianças no jardim de infância fossem torturadas até morrer em
laboratórios? Se aceitamos fazer isso por pessoas, mas não por
animais, estamos adotando o especismo, ou seja, acreditar que
seres humanos são superiores a outras espécies. Sou contra o
especismo da mesma maneira que sou contra racismo, machismo e
homofobia.
Melhorar a saúde dos humanos não
justifica os testes com animais?
Na Alemanha nazista, judeus eram utilizados como cobaias em campos
de concentração. Graças a testes assim, cientistas obtiveram
informações úteis. Eu acho errado matar de frio um judeu para
estudar o combate à hipotermia. Da mesma maneira, sou contra matar
animais. Não me interessam os benefícios que essas pesquisas
trarão.
Para desenvolver antibióticos, os
cientistas valeram-se de testes em cobaias animais. Como médico,
você receita esse tipo de remédio a seus pacientes?
Claro que sim. Mas o fato de um idiota ter enfiado droga goela
abaixo de um animal para verificar a eficácia do tratamento não
prova que esse ato seja necessário. É bom lembrar que novos
remédios precisam sempre ser testados também em seres humanos.
E como a medicina pode avançar sem
experimentar suas novas tecnologias em cobaias de laboratório?
Animais são forçados a viciar-se em cocaína, anfetaminas, cigarros
e outras substâncias que todos sabem que são prejudiciais. Em
outros experimentos, filhotes são separados de suas mães para
estudar o que acontece com pessoas criadas sem afeto. A forma como
esses animais sofrem não tem nada a ver com os humanos. Não há
razão para isso.
A maior parte das informações úteis para seres humanos é obtida em
testes clínicos com seres humanos. Estudamos grandes amostras de
pessoas, vemos o que acontece e detectamos padrões. Também podemos
usar técnicas como autópsias, a análise de tecidos, testes em
culturas de células humanas e modelos matemáticos. Experimentos
assim são muito mais confiáveis do que dar drogas a ratos, coelhos
ou outros animais. Quando aplicamos drogas numa fêmea podemos ter
efeitos diferentes daqueles verificados num macho. Acreditar que o
que você deu ao rato terá o mesmo efeito num ser humano é
estúpido. Não faz qualquer sentido. Não funciona.
Na verdade, a utilização de animais pode até atrapalhar esse
processo. O desenvolvimento da vacina contra pólio, por exemplo,
atrasou dez anos porque o modelo animal não produziu os resultados
desejados. Gastam-se centenas de milhões de dólares em pesquisas
envolvendo animais e pelo menos 90% dos estudos vão para o lixo. E
de tudo que é publicado, no máximo 1% ou 2% realmente tem alguma
utilidade.
Se os experimentos em cobaias são mesmos
inúteis, por que a indústria farmacêutica gasta tanto dinheiro com
eles todos os anos?
Testes com animais servem como arma para disputas judiciais. Se o
remédio fizer mal, alega-se inocência com base nos testes da droga
em muitas espécies. Também há muita gente ganhando dinheiro com
pesquisas financiadas por recursos públicos, incluindo as
indústrias farmacêuticas. Além disso, governos exigem a realização
de testes em animais. Isso é um erro, mas não surpreende. A
indústria farmacêutica tem dois lobistas para cada membro do
congresso americano. Foi por causa desse tipo de lobby que o meu
visto de entrada na Grã-Bretanha foi negado.
Jerry Vlasak
• Nos tempos de médico-residente, participou de pesquisas contra a
arteriosclerose envolvendo cachorros. Abandonou os experimentos
por considerá-los "inúteis" e "cruéis".
• Saboreava um bom bife até 1992, quando leu alguns livros sobre o
sofrimento de animais, deu adeus a carne, leite e ovos e virou
vegetariano
• Foi preso por cinco dias por participar de um protesto contra o
uso de peles animais em Los Angeles. Questionou a detenção na
Justiça e acabou com 20 mil dólares de indenização no bolso
"Não me interessam os benefícios que as pesquisas podem trazer.
Sou contra matar animais"
Publicado na
Edição 213 da Revista Super Interessante
- 05/2005 |
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