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de Sílvia Franz Marcuzzo
(jornalista, Artigo publicado em “O Globo”)
Tem ambientalista que não sabe mais o que fazer para manter a
própria segurança e a dos seus familiares.
Risco de vida, morte, calúnia, difamação, assédio moral, ações na
Justiça... São inúmeras as ameaças a ambientalistas. E não é
apenas na Amazônia, isso ocorre em plena área da Mata Atlântica,
onde vivem 80% da população
brasileira.
O caso mais emblemático, que atraiu a atenção da mídia
internacional, foi o
assassinato da Irmã Dorothy Stang, em fevereiro deste ano, no
Pará. Dez dias depois, o defensor da Reserva Biológica do Tinguá,
no Rio de Janeiro,
Dionísio Ribeiro, foi assassinado por palmiteiros.
Há outros casos em que o perigo é iminente, onde as ameaças ainda
não se concretizaram. Tem ambientalista que não sabe mais o que
fazer para manter a própria segurança e a dos seus familiares.
Em Santa Catarina, a perseguição, as ameaças e os tiros abalam até
a liberdade de imprensa. Em 23 de março deste ano, o jornalista
Maurício Melato Barth teve as pernas cravejadas de balas, depois
de ter publicado em seu jornal uma matéria denunciando a
construção de um edifício em plena areia da praia, com autorização
da prefeitura do município de Itapema.
Nelson Wendel, autor do parecer técnico que aponta a ilegalidade
da obra, lembra que até hoje o jornalista se encontra em
recuperação e passa por dificuldades. Enquanto aguardam o
resultado do inquérito, Maurício e sua família estão escondidos. O
jornal teve a circulação interrompida.
Outras situações já ocorreram há mais tempo e também não foram
solucionadas.
Em agosto de 2003, Norberto Hess, então secretário do Meio
Ambiente do município de Maraú, no Sul da Bahia, foi atacado por
caminhoneiros que transportavam madeira irregular, ao registrar o
flagrante com sua máquina
fotográfica.
Levou uma surra que deixou seus braços sem movimento. Ele se
recuperou
fisicamente há meses, mas o trauma ainda permanece.
Seus agressores não foram presos, voltaram para a fazenda onde
moravam e ainda espalharam na região que estariam prontos para
pegá-lo de novo.
E o pior é que eles continuam serrando e vendendo madeira ilegal.
Hess acha que a polícia não tem interesse em resolver a questão. O
Ibama também não prendeu o caminhão com as toras. Segundo ele, o
veículo permanece abandonado à beira de uma pequena estrada.
E quem tenta salvar espécies que serão destruídas também sofre
conseqüências inimagináveis. Em agosto deste ano, Rodrigo
Agostinho, fundador do Instituto Vidágua, e o secretário executivo
da entidade, Ivan de Marchi, quase foram presos porque coletaram
algumas bromélias de uma área que estava sendo desmatada e as
levaram para o Jardim Botânico da cidade.
A área devastada era uma mata de transição entre a mata atlântica
e o cerrado, que foi destruída por um trator de esteira e
correntes, em Bauru, no interior de São Paulo.
O proprietário procurou a polícia e acusou os dois ambientalistas
de furto, com base no artigo 155, inciso IV, do Código Penal. A
mata de 30 hectares foi derrubada para a construção de um
loteamento de luxo.
O dono da terra ainda mandou cópia do Boletim de Ocorrência para a
imprensa local, apontando-os como ladrões.
E em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul, o proprietário
de uma Reserva Particular de Patrimônio Natural e os pesquisadores
de sua área também estão ameaçados de morte.
Rogério Mongelos, Lisiane Becker, responsável técnica da Unidade
de Conservação, e demais integrantes da equipe foram obrigados a
suspender as pesquisas na região porque um vizinho, que costuma
derrubar a mata e alargar estradas por sua própria conta, não
deseja a realização do levantamento.
As ameaças se agravaram porque o grupo está tentando retomar os
trabalhos, suspensos há cerca de dois anos.
Esse vizinho disse diretamente aos pesquisadores que iria “passar
o facão” em quem voltasse ao local, isto é, na própria RPPN,
distante sete quilômetros de Taquara, na região metropolitana de
Porto Alegre.
E mesmo quem não está no meio da mata vem sofrendo represálias.
A ambientalista Miriam Prochnow e seus familiares, que já foram
sentenciados à morte e tiveram que ser protegidos, inclusive pela
Anistia Internacional, estão sofrendo várias formas de assédio
moral.
No início deste ano, ela foi chamada de “Guerrilheira Verde” por
uma revista
de circulação nacional, porque denunciara a fraude do Estudo de
Impacto Ambiental da Usina Hidrelétrica de Barra Grande, na divisa
entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Hoje Miriam e outros ambientalistas de entidades como a Associação
de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí, de Santa
Catarina, o Mater Natura, a Rede Verde e a Sociedade de Pesquisa
em Vida Silvestre (SPVS), do Paraná, estão sendo acusados de
integrar uma “quadrilha ambiental”.
Parlamentares e políticos ligados a madeireiros e grileiros têm
difamado a atuação da ambientalista, que ocupa pela segunda vez o
cargo de coordenadora-geral da Rede de ONGs da Mata Atlântica.
O que ela e os demais membros de entidades querem é simplesmente
preservar o ecossistema mais ameaçado da Mata Atlântica, a
floresta com araucárias, do qual restam menos de 3% da mata
original.
O grupo formado por representantes não apenas de organizações
não-governamentais, mas também de universidades, órgãos públicos e
do setor
produtivo, sabe como é importante a criação urgente de Unidades de
Conservação em Santa Catarina e no Paraná. Florestas como essas
estão à beira da extinção e só apresentam fragmentos
representativos nesses dois estados.
Esses são apenas exemplos de algumas formas de retaliação, que
tentam forçar o silêncio, barrar a ação de pessoas preocupadas em
preservar parte dos 8% que ainda restam da Mata Atlântica.
Os protagonistas clamam por justiça. Não apenas quando a pressão
vem de fora, das forças da comunidade internacional.
Eles ainda acreditam que, ao invés de virarem nome de praça ou
parque em
algum canto deste país, é melhor continuarem lutando em defesa do
patrimônio socioambiental do Brasil.
(O Globo, 23/9) |
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