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US$ 5,8 bi para devastar a Amazônia
Livro mostra que financiamento da pecuária na região foi milhares
de vezes maior do que o do reflorestamento entre 1989 e 2002
Cristina Amorim
O financiamento oficial para a pecuária bovina na Amazônia foi
mais de 25 mil vezes maior do que para o reflorestamento entre
1989 e 2002. No período, o Banco da Amazônia emprestou para os
pecuaristas US$ 5,8 bilhões do Fundo Constitucional de
Financiamento do Norte (FNO) na Amazônia (excluindo Mato Grosso e
Maranhão), dos quais US$ 2,36 bilhões foram aplicados diretamente
no setor. Projetos de reflorestamento ganharam menos de US$ 10
mil.
É fácil entender por que a Amazônia é atualmente a região do
Brasil onde a população bovina mais cresce: passou de 26,6 milhões
para 64 milhões de cabeças, um aumento de 240%. Hoje, há três
vezes mais bois do que pessoas na Amazônia. É também óbvio
concluir que tal desempenho não é conseqüência do investimento
pesado em tecnologias para aumentar a produtividade em regiões
tradicionalmente pecuaristas e, sim, o efeito da falta de
políticas públicas que faz o preço da terra ser tão baixo no Pará
e no norte de Mato Grosso. É muito barato desmatar, legal ou
ilegalmente, e a madeira ainda serve como capital para quem
investe em gado.
Os dados fazem parte de um livro lançado ontem pela ONG Instituto
do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Intitulado
Pecuária na Amazônia: Tendências e Implicações para a Conservação,
ele traça um perfil do setor com óculos socioambientais e confirma
que o desmatamento na Amazônia segue ondas de exploração. E uma
das principais é o gado.
A Terra do Meio, região do Pará campeã em corte de árvores e
grilagem, é também uma das áreas onde o gado mais cresce. "Um dos
fatores de incentivo é a facilidade de acesso à floresta. Para
conseguir o FNO, é proibido desmatar, mas a pessoa tem capital que
vem da própria floresta", explica Paulo Barreto, um dos autores do
livro.
"Quase 100% do desmatamento na Terra do Meio é para pecuária." São
Félix do Xingu (PA), município que mais derrubou no último ano, vê
sua população bovina, que já ultrapassa 130 mil cabeças, crescer
vertiginosamente nos últimos anos. Muita gente "limpa" o terreno
das árvores e coloca animais com o objetivo de elevar o valor da
terra e vender mais tarde para grandes pecuaristas.
Esse perfil é de quem atua nas "novas fronteiras" da pecuária na
Amazônia, geralmente em locais onde existe muita irregularidade
fundiária ou próximos a rodovias que serão asfaltadas, como a
BR-163, que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA). Há também o caso do
Acre, que recebeu produtores depois que Rondônia realizou um
zoneamento econômico.
Há outro tipo de pecuarista na Amazônia, mais organizado, que
tenta se modernizar. Ele visa ao mercado internacional, que está
nas mãos de quem produz no Centro-Oeste e Sul. "Ele está em
fronteiras já estabelecidas, como no leste do Pará, em Rondônia,
Mato Grosso e Maranhão, e investe em tecnologia", diz Barreto. "Só
que a parte ambiental não melhorou."
Tatiana Deane de Abreu, diretora-executiva da Embrapa, acredita
que é possível fazer o setor crescer sem mais ônus ambiental,
desde que a questão da terra seja regularizada e um zoneamento
econômico seja feito para toda a região. "A pecuária na Amazônia
começou quase 'extrativista'. É preciso recompor a função da
floresta."
Já que a tendência é de crescimento, o Imazon sugere a criação de
unidades de conservação mistas: em algumas a pecuária seria
permitida, enquanto outras seriam formadas exclusivamente para a
preservação ambiental. Isso, diz Barreto, se o governo criar
mecanismos que barrem a ilegalidade e ajudem a promover o
crescimento sustentável. |
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