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01/08/2005
AFRA BALAZINA
da Folha de S.Paulo
O Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal quer impedir que a
prova do laço de bezerro seja realizada na 50ª Festa do Peão de
Boiadeiro de Barretos, que começa no dia 11 e termina no dia 28
deste mês. A entidade entrou com uma representação no Ministério
Público Estadual.
Na prova do laço, um peão deve laçar um bezerro pelo pescoço,
manter a corda esticada, pular do cavalo e amarrar três patas de
forma que ele fique imobilizado. Depois, o laçador deve montar
sobre ele e levantar as mãos --momento em que o seu tempo é
marcado.
Segundo a presidente do fórum, Sônia Fonseca, essa prova é a mais
cruel de todo o rodeio. "Ela é pior porque bezerros muito novos
sofrem traumatismos e, muitas vezes, saem mortos da arena", diz.
Segundo Fonseca, que é bióloga, fotos mostram as pupilas dos
animais dilatadas durante as provas, o que seria uma comprovação
da situação de pânico, dor e estresse vivida por eles.
Apesar de tentar acabar com uma das provas, Fonseca considera
impossível proibir a realização completa do rodeio em Barretos em
razão, principalmente, da força econômica do evento. "Existe uma
exploração financeira dos maus-tratos dos animais ."
O promotor de Justiça de Barretos José Ademir Borges confirma o
recebimento da representação e diz que está investigando se
realmente existem maus-tratos durante esse tipo de competição.
"Vamos aguardar os resultados da perícia", diz.
Se ficar provado que os animais sofrem danos ao participar da
prova, ela pode ser proibida. O promotor acredita, entretanto, que
não haverá tempo para decidir sobre o assunto antes da realização
da festa deste ano.
Em São José dos Campos, o promotor Laerte Levai conseguiu a
proibição dos rodeios. "Por enquanto, vencemos em cidades com
menos tradição nesse tipo de evento. Depois, acredito que tentarão
chegar a Barretos", diz.
Segundo ele, a Constituição veda a crueldade contra animais, assim
como a legislação ambiental. "Só tentamos fazer cumprir a lei." No
Rio de Janeiro, os rodeios também foram proibidos, e em Itu
(interior de São Paulo) foi impedida judicialmente a exibição de
animais em festas.
A promotora de Justiça de São Paulo Vania Puglio diz que inúmeros
estudos de veterinários comprovam maus-tratos nos animais durante
os rodeios. Segundo ela, as pesquisas mostram que o volume do som,
o grande público presente e a proximidade com os homens, as luzes
diferentes e o espaço apertado em que são colocados causam
estresse.
Os estudos também indicam que equipamentos como o sedém (aplicado
na virilha do animal) e as esporas do peão, usados para que os
bois e cavalos pulem, causam sofrimento e dor.
"O boi tem evacuação aquosa, palpitação e fica com a pupila
dilatada, sinais evidentes de sofrimento", diz ela, que é
assessora do Centro de Apoio Operacional de Urbanismo e Meio
Ambiente do Ministério Público em São Paulo. Segundo Puglio, está
provado que animais e humanos têm sensações parecidas. "Os animais
têm condições de perceber que o ambiente é hostil, têm
sensibilidade para sentir a pancada e a dor."
A promotora defende o princípio da precaução no caso dos rodeios.
"Na dúvida sobre os efeitos, deve-se deixar de fazer." Ela opina
que, ao regulamentar os rodeios, os legisladores brasileiros deram
uma péssima mostra de desrespeito ao ambiente e, principalmente, à
fauna.
Cultura importada
A integrante da Associação Cultural e Ecológica Pau-Brasil, Simone
Kandratavicius, diz que o rodeio não faz parte da cultura
brasileira. "É uma cultura importada dos Estados Unidos e que
querem nos enfiar goela abaixo."
"O rodeio é maldade pura. Não somos contra a festa em si, contra
os shows, feiras e exposições. Mas acho que a cultura brasileira
deveria ser mais valorizada. Temos a cavalgada, o boi-bumbá", diz.
Em Barretos, entretanto, como a festa ocorre há 50 anos, ela
acredita que a população local já tenha "incorporado" essa
cultura.
Outro lado
O responsável pelas provas da 50ª Festa do Peão de Barretos,
Marcos Sampaio de Almeida Prado, afirma que não há nenhum tipo de
maltrato durante o rodeio.
Segundo ele, apenas bezerros com mais de oito meses e com peso
acima de 100 kg participarão da prova do laço, que o Fórum
Nacional de Proteção e Defesa Animal tenta impedir que aconteça
neste ano.
"Temos respaldo judicial e científico para realizar a prova.
Colocaremos bebedouros de água em todos os locais onde os animais
ficam esperando e haverá lugar para alimentá-los", disse Prado,
que é médico veterinário. Os bezerros escolhidos para participar
da prova terão de ser bem nutridos e vacinados, de acordo com ele.
Prado afirma ainda que a prova do laço é realizada em 23 países e
muitos profissionais vivem dela. "Por isso estamos normatizando a
prova. Não estamos de brincadeira. Fazemos tudo de maneira muito
séria", diz.
Na opinião do diretor de rodeio Marcos Abud, a festa de Barretos
não teria chegado ao seu cinqüentenário se houvesse maus-tratos
aos animais. "Nosso público sabe a forma como tratamos os
animais", afirma.
Segundo ele, o sedém, tira de lã de carneiro colocada na virilha
do boi ou do cavalo no rodeio, gera cócegas. Por isso faz com que
eles dêem saltos mais velozes. "Não é verdade que o sedém machuca
ou aperta os testículos", afirma.
Abud diz que não é o sedém que faz os animais pularem. "De cerca
de 200 bois que experimento, apenas um é pulador. Eles pulam
porque têm índole, não porque estão sofrendo", afirma.
No caso dos eqüinos, ele diz que 99% dos cavalos que participam do
rodeio são castrados. Mas, segundo o diretor, costuma-se usar
éguas --elas representam 70% do total de eqüinos nos rodeios, o
que diminui os ferimentos na região dos testículos.
O diretor convida os integrantes de entidades que criticam o
rodeio de Barretos para conferir o tratamento dado aos animais
durante a festa.
"Gostaria que eles vissem a forma como cuidamos deles", afirma. Os
touros que pulam muito e derrubam os melhores peões são
considerados verdadeiras estrelas e recebem tratamento
diferenciado. Um deles é o touro Bandido, que virou personagem da
novela "América".
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u111546.shtml
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